Norah, por favor

Arquivo 001

POV Aiden

32 min de leitura · Capítulo extra

Vinte anos depois.

— Pai… — Levantei os olhos da xícara de café. Lucca Calloway estava parado na porta da cozinha e já tinha quase a minha altura. O cabelo escuro estava bagunçado de um jeito que lembrava exatamente como o meu ficava aos quinze anos quando eu passava a mão nele sem perceber, mas os olhos... os olhos eram idênticos aos da mãe. Sorri de canto. — Aconteceu alguma coisa? — Ele coçou a nuca. — Posso conversar com você? — Ele falou preocupado. Olhei para o relógio na parede, ainda eram seis e meia da manhã. A casa permanecia silenciosa e Norah provavelmente ainda dormia no quarto, abraçada ao travesseiro como fazia desde que nos casamos. Apontei para a cadeira à minha frente. — Senta. Ele puxou a cadeira devagar e ficou alguns segundos encarando a própria mão antes de respirar fundo. — Eu acho... que estou apaixonado. — falou olhando nos meus olhos, confiante. Não consegui evitar o sorriso. Por um instante, deixei de enxergar meu filho e vi um garoto de quatorze anos usando uniforme do colégio, completamente perdido depois de descobrir que uma menina de sardas tinha conseguido bagunçar o mundo inteiro dele. — Ela é da escola? — perguntei. Ele assentiu. — Da minha sala. — E ela sabe? — Ele negou rapidamente. — Ainda não. — Ainda. Então ele queria que soubesse. Silêncio. Ele respirou outra vez. — Pai... como você sabia que a mamãe era a pessoa certa? — A pergunta ficou entre nós por alguns segundos. Sorri enquanto mexia lentamente o café. Depois apoiei os cotovelos sobre a mesa. — Antes de responder isso... deixa eu te perguntar uma coisa. — Minha voz saiu séria. Eu sempre o criei para ser um homem, mas ainda havia um longo caminho entre ser um garoto apaixonado e um homem pronto para amar. Ele assentiu. — Se vocês começassem a namorar hoje... o que você poderia oferecer para ela? Ele franziu a testa. — Ué... carinho? Sorri. — E depois? Silêncio. — Você consegue protegê-la? Ele abaixou os olhos. — Não. — sua confiança continou ali, mesmo desapontado. — Consegue sustentá-la? Ele negou, os ombros murchando. — Tem maturidade para liderar uma família? Outra negativa. — Está pronto para colocar as necessidades dela acima das suas todos os dias? Ele demorou mais dessa vez. — Acho que não. — Assenti. — Então por que tanta pressa? — Ele soltou um suspiro. — Porque eu gosto dela. Sorri de leve. — Filho... eu também me apaixonei pela sua mãe muito antes de poder chamá-la de minha. Ele me encarou com curiosidade. — Muito antes quanto? — Dez anos. Os olhos dele arregalaram. — Dez? — perguntou mais alto do que deveria. Sorriu sem jeito e olhou para o corredor. — Desculpa... ainda vou acordar a mamãe e as meninas. Soltei uma risada baixa. — Dez. Ele balançou a cabeça. — Isso é impossível. — Seus olhos estavam brilhando com a possibilidade. — Também achei que fosse. Apoiei a xícara sobre a mesa. — Mas sabe o que eu fiz durante esses dez anos? Ele balançou a cabeça. — Eu cresci. Estudei. Treinei. Aprendi a servir. Aprendi a depender de Deus. Me tornei o homem que um dia seria capaz de cuidar dela. Fiz uma breve pausa. — A paixão pergunta: "Quando ela vai ser minha?". O amor pergunta: "Que homem eu preciso me tornar para cuidar dela?". Meu filho permaneceu em silêncio. — Entende o que estou tentando dizer? — Sempre fomos muito próximos. Talvez por isso ele tenha vindo conversar comigo antes de tomar qualquer decisão. Ele assentiu devagar. — Você não precisa ter pressa para viver uma história de amor. Precisa ter pressa para se tornar um homem de Deus. Porque, quando a mulher certa chegar, ela não vai precisar de um garoto apaixonado. Vai precisar de um homem disposto a amá-la como Cristo amou a Igreja. Os olhos dele baixaram para a mesa. — Acho que nunca tinha pensado assim. Sorri. — Eu também não pensava... até Deus me ensinar. — Olhei pela janela da cozinha. O sol começava a pintar o céu de laranja, exatamente como naquela manhã. Engraçado como algumas lembranças nunca perdem a cor. — Quer saber como tudo aconteceu? Meu filho endireitou a postura. — Quero. Respirei fundo. Fechei os olhos. Quando os abri, já não estava mais na cozinha da nossa casa. Estava vinte anos no passado. Na manhã em que Deus decidiu devolver o meu coração. Na manhã em que eu a vi outra vez. Depois de dez anos.

Mais uma noite sem dormir. O relógio sobre o criado-mudo girou e eu acompanhei todos os minutos. Permaneci encarando o teto por alguns segundos, tentando entender o que aconteceu naquela explosão. Hoje era o dia da minha transferência para a UCF. Soltei o ar devagar. Já fazia alguns meses que eu havia voltado da última missão e, pela primeira vez em muito tempo, fui obrigado a desacelerar. O Exército continuava fazendo parte de quem eu era, mas eu queria mais. Queria terminar a faculdade. Construir uma carreira. Criar raízes em algum lugar. Levantei antes que o despertador tivesse a chance de tocar. O hábito militar era difícil de abandonar. Arrumei a cama em menos de um minuto, lavei o rosto e fiquei alguns segundos encarando meu reflexo no espelho. Vinte e quatro anos. Era estranho perceber como o tempo havia passado. Às vezes eu ainda me sentia aquele garoto que corria pelas ruas de Anna Maria Island com uma menina de vestido florido tentando acompanhar meus passos. Sorri sozinho. Fazia dez anos. Dez anos desde a última vez que vi Norah. Não fazia ideia de onde ela estava. Se ainda morava na Flórida, tinha entrado para alguma faculdade ou se já existia outro homem ocupando o lugar que, um dia, eu sonhei em conquistar. Aquela última possibilidade ainda incomodava mais do que eu gostava de admitir. Balancei a cabeça. Algumas lembranças precisavam continuar apenas como lembranças. Depois de tanto tempo, eu só esperava que ela estivesse bem. Era o suficiente. Ou pelo menos era isso que eu repetia para convencer meu próprio coração. Depois de um café rápido e de uma oração silenciosa, peguei a pasta com toda a documentação da transferência. Conferi os papéis pela terceira vez. Carteira. Documentos. Histórico. Carta de aceitação. Tudo estava ali. Tranquei a porta do apartamento e caminhei até o carro. O céu de Orlando ainda carregava os primeiros tons do amanhecer. Entrei, liguei o motor e sorri ao perceber que, depois de tantos anos em batalhões, eu dirigia sem medo de chegar a lugar algum, mas haviam outros planos preparados para mim.

Era estranho voltar a ser apenas um universitário. Durante anos, meus dias começaram com ordens, treinamentos e missões. Os três primeiros anos da minha graduação em Engenharia aconteceram entre alojamentos, exercícios militares e salas improvisadas dentro do quartel. Agora, eu atravessava um campus universitário carregando apenas uma pasta de documentos. A vida realmente podia mudar de um dia para o outro. Saí do carro e respirei fundo. O calor da Flórida me recebeu imediatamente, sorri. Algumas coisas nunca mudavam. O prédio da administração ficava do outro lado do campus. Caminhei sem pressa, observando grupos de alunos atravessando as calçadas, bicicletas passando por todos os lados e mochilas desaparecendo entre os prédios. Era um mundo completamente diferente daquele em que eu tinha vivido nos últimos anos. Entreguei meus documentos na secretaria, assinei formulários, respondi perguntas e esperei minha senha ser chamada mais vezes do que imaginei. Quando finalmente saí dali, já passava das onze. Olhei os papéis mais uma vez. Tudo resolvido. Uma preocupação havia deixado meus ombros. Guardei a pasta debaixo do braço e comecei a caminhar em direção ao estacionamento. Foi quando a vi. Ou, pelo menos, achei que tivesse visto. Uma garota atravessou a calçada alguns metros à minha frente. Não consegui enxergar seu rosto. Só o cabelo preso de qualquer jeito e a mochila pendurada em um ombro. Ela tinha um jeito de caminhar familiar. Meus pés pararam antes que eu percebesse. Não. Balancei a cabeça e continuei andando porque era impossível. Dez anos eram tempo demais para um coração continuar criando ilusões. Se Deus tivesse desejado cruzar nossos caminhos outra vez, isso já teria acontecido, eu ja tinha aceitado que passaria a vida sozinho, afinal meu coração era de Norah Tomlinson. Dei mais alguns passos. Olhei para trás. Ela já tinha desaparecido entre os estudantes. Sorri sozinho. — Você está ficando maluco, Calloway. Continuei caminhando. Convencido de que tinha acabado de confundir uma desconhecida com a garota que eu nunca consegui esquecer. Ainda faltava imprimir um dos documentos da matrícula. A biblioteca ficava logo adiante. Entrei sem imaginar que, alguns minutos depois, Deus pisaria, mais uma vez, em toda a lógica que eu havia construído durante aqueles dez anos. Empurrei a porta de vidro e o ar gelado me envolveu imediatamente. O silêncio dali contrastava com a movimentação do lado de fora. Alguns estudantes ocupavam as mesas espalhadas pelo salão enquanto outros caminhavam entre as estantes carregando pilhas de livros. Segui até um dos computadores disponíveis. Conectei o pendrive. Abri o arquivo. Cliquei em imprimir. Enquanto a folha não saía da máquina, apoiei as mãos sobre o balcão e deixei os olhos passearem distraidamente pelo ambiente. Meu coração errou uma batida, pois a garota estava ali novamente. Ela estava sentada perto da janela, de costas para mim. Não. Não podia ser. Prendi a respiração. Ela escrevia alguma coisa no caderno. Parava por alguns segundos. Então apoiava o queixo na mão e olhava pela janela, completamente alheia ao mundo. Franzi a testa. Sempre que alguma coisa prendia sua atenção, esquecia todo o resto, eu me lembrava. Balancei a cabeça. Não. Era só uma coincidência, existem milhares de garotas na Flórida. Milhares. A impressora apitou. Peguei o documento. Era só ir embora. Mas alguma coisa dentro de mim pediu mais alguns segundos. Aproximei-me de uma mesa vazia alguns metros atrás dela, porque alguma coisa não estava certa. Abri o notebook sobre a mesa. A tela acendeu. Nunca cheguei a olhar para ela. Meus olhos voltavam, sem que eu percebesse, para a garota sentada perto da janela. Ela permaneceu ali por vários minutos. Escrevia. Apagava. Rabiscava a margem do caderno. Depois voltava a olhar para fora. O sol atravessava o vidro e iluminava parte do seu rosto. Foi quando ela afastou uma mecha de cabelo para trás da orelha que meu peito apertou. Senti a garganta secar. Ainda assim, me recusei a acreditar. Dez anos mudam as pessoas. Mudam o rosto. Mudam a voz. Mudam a vida. Talvez estivessem tentando mudar até as minhas lembranças. Então, ela virou o rosto apenas o suficiente para que eu enxergasse seu perfil. As sardas. Meu coração simplesmente parou. Não existiam duas Norahs no mundo. Era ela. Senti meu coração acelerar tão forte que tive medo de ouvi-lo ecoar pela biblioteca. Pisquei algumas vezes. Como se, ao abrir os olhos de novo, ela pudesse desaparecer, mas não desapareceu. Continuava sentada perto da janela, completamente concentrada no caderno à sua frente. Eu a encontrei. Não. Deus a colocou no meu caminho. E, de repente, tudo o que eu tinha ensaiado durante aqueles anos simplesmente deixou de existir. Durante uma década inteira imaginei como seria aquele reencontro. Pensei nas primeiras palavras. No sorriso. No abraço. Na reação dela ao me ver. Na minha reação ao vê-la. Descobri, naquele instante, que a imaginação nunca seria capaz de competir com a realidade, porque eu não consegui fazer absolutamente nada. Permaneci sentado. Imóvel. Observando. Norah havia mudado, os cabelos estavam mais compridos. O rosto carregava a delicadeza de uma mulher, não mais de uma menina. Ainda assim... Ainda era ela. Ela inclinava a cabeça levemente para a direita quando estava concentrada, batucava a ponta do lápis sobre a mesa enquanto pensava. Franzia o nariz quando alguma frase não saía do jeito que queria. Sorri sem perceber. Eu me lembrava de suas manias. Meu Deus... Passei a manhã inteira tentando convencer meu coração de que estava enxergando uma desconhecida. Agora, cada pequeno gesto me lembrava exatamente quem ela era. O tempo havia levado muitas coisas, mas não os detalhes. Uma hora se passou, talvez mais. Perdi completamente a noção, Norah continuava estudando sozinha. Nenhuma amiga apareceu para sentar ao lado dela. Ninguém interrompeu sua leitura. Ninguém perguntou se o lugar ao lado estava ocupado. Ela parecia... acostumada. Aquilo apertou meu peito e confesso que eu não esperava. Lembrei da menina que passava tardes inteiras esperando que eu terminasse os treinos para podermos correr pela praia. A mesma menina agora passava horas cercada por centenas de pessoas... ...e continuava sozinha. Ela fechou o caderno. Olhou novamente pela janela. O sol iluminava seu rosto enquanto o vento balançava algumas mechas do cabelo presas atrás da orelha. Sorri de lado. — Você ainda olha para o mundo do mesmo jeito... — murmurei tão baixo que nem eu mesmo sabia se tinha falado ou apenas pensado. Ela pegou um livro, abriu na metade. Leu duas páginas, então parou outra vez. Ficou apenas observando o vento que em breve se tornaria tempestade. Agora desde que entrei na biblioteca, tive coragem de tirar os olhos dela. Olhei para a tela do meu notebook. Ela ainda exibia o mesmo documento da matrícula. Nem uma linha havia sido lida. Balancei a cabeça e ri sozinho. — Você veio imprimir um papel... e passou a tarde inteira olhando uma garota. Nunca imaginei que um dia zombaria de mim mesmo. Mas, naquele momento… Eu faria exatamente a mesma coisa de novo. Quando Norah finalmente fechou o livro, já passava das cinco. Guardou o caderno na mochila, organizou os poucos lápis espalhados sobre a mesa e levantou. Meu corpo fez o mesmo movimento, foi automático. Esperei alguns segundos. Ela caminhou em direção à saída da biblioteca sem olhar para trás. Mantive certa distância. Não queria assustá-la. Na verdade, eu tinha quase certeza de que já estava parecendo um completo perseguidor. Balancei a cabeça. Parabéns, Calloway. Dez anos sem vê-la e a primeira impressão que você vai causar é a de um maluco. Alguma coisa dentro de mim se recusava a deixá-la simplesmente desaparecer outra vez. Fiz uma nota mental de não permitir que ela andasse sozinha na rua, ela não tem senso de sobrevivência nenhum e se eu fosse um maluco? Assim que saímos do prédio, o céu deu os primeiros sinais de que desabaria. As nuvens escureceram depressa, o vento aumentou. Norah apertou a mochila contra o peito e acelerou o passo. Segui alguns metros atrás, quando ela parou no ponto de ônibus, meu coração acelerou. Ela estava esperando. Era a oportunidade perfeita, então respirei fundo. "Oi, Norah." Não. "Oi... tudo bem? Você lembra de mim?" Fechei os olhos por um instante. Piorou. "Oi, Norah. Eu sou o Aiden..." Franzi a testa. Ela sabia quem era o Aiden ou pelo menos sabia quem ele tinha sido. Soltei uma risada baixa. "Oi. Lembra de mim? A gente foi melhor amigo na infância... eu desapareci por dez anos... e, por sinal, nunca deixei de amar você." Passei a mão no rosto. — Você enlouqueceu, Calloway... Murmurei para mim mesmo. Talvez fosse melhor me apresentar como qualquer outra pessoa. Se ela me reconhecesse... Ótimo. Se não reconhecesse... Eu teria tempo para conhecê-la de novo, sem colocar sobre os ombros dela o peso de dez anos de espera. Gostei dessa ideia ou pelo menos tentei convencer meu coração de que gostaria. Quando finalmente decidi que ia te ela sem saber o que dizer, ônibus surgiu no fim da avenida e parou diante do ponto. As portas se abriram. Norah entrou primeiro. e eu fiquei para traz na chuva, as portas começaram a se fechar. Olhei para o estacionamento da universidade, meu carro continuava exatamente onde eu o havia deixado. Olhei outra vez para o ônibus, depois a chuva. Suspirei. — Depois eu busco. Corri. — Espera! O motorista tornou a abrir as portas. Subi os degraus completamente encharcado. A água escorria pela minha testa, pelo pescoço, pelas mangas da camisa. Passei a catraca tentando recuperar o fôlego. O ônibus arrancou antes que eu conseguisse me equilibrar. Dei dois passos pelo corredor tomado por trabalhadores voltando para casa. Norah permanecia em pé, segurando o ferro ao lado da janela. Ela quase não tinha crescido, continuava pequena. Delicada, como se o tempo tivesse decidido poupá-la de tudo o que era capaz de endurecer uma pessoa. Mas seus olhos fitavam a chuva la fora… Os olhos pareciam carregar histórias que a menina de Anna Maria Island jamais deveria ter vivido. Engoli em seco. Dez anos. Passei dez anos imaginando como você estaria. A realidade foi infinitamente mais bonita do que qualquer lembrança que eu consegui guardar. Segurei o metal acima da minha cabeça. Nesse instante, senti uma gota escorrer pela ponta do meu cabelo. Ela caiu bem sobre o nariz dela. Norah franziu a testa, levou a mão ao rosto e depois ergueu os olhos. Azuis. Continuavam exatamente iguais. O mundo inteiro desapareceu. O barulho da chuva. O motor do ônibus. As pessoas ao redor. Tudo. Existiam apenas nós dois. Ela me olhou por um segundo. Depois por mais um. Vi o instante exato em que seus olhos deixaram de enxergar um estranho. Ela me reconheceu. O ar pareceu fugir dos pulmões dela. Minha garganta apertou. Sorri sem perceber. — Já faz dez anos, Norah... Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Não porque ela não pudesse ouvir. Depois de tanto tempo, até dizer o nome dela parecia um privilégio que eu não tinha mais certeza se merecia.

— Foi assim... — sorri, voltando meus olhos para Lucah. — Foi exatamente assim que eu reencontrei a sua mãe. Ele permaneceu em silêncio. Acho que ainda estava tentando imaginar tudo o que eu tinha acabado de contar. — Sabe qual foi a melhor parte? — Sorri de lado. Ele balançou a cabeça. — Nada aconteceu do jeito que eu tinha planejado. — Franzi a testa, divertido. — Na verdade, eu não consegui dizer nenhuma das frases que ensaiei durante dez anos. Esqueci tudo no instante em que olhei para ela. Lucah riu baixo. — Mas aconteceu exatamente do jeito que Deus havia planejado. — Ele falou, me surpreendendo. Assenti. — Exatamente. Passei o polegar pela aliança em meu dedo. — Durante muito tempo eu achei que Deus tinha dito "não". Depois percebi que Ele só estava dizendo: "Ainda não." Olhei pela janela por um instante. — Se eu tivesse encontrado sua mãe antes... eu ainda era um garoto. Eu não teria conseguido cuidar dela como ela merecia. Voltei a encará-lo. — Deus não estava me afastando da Norah. Estava me preparando para ela. Lucah permaneceu em silêncio. Vi seus olhos brilharem de um jeito diferente. Como se, pela primeira vez, ele entendesse que esperar também fazia parte de amar. — Então... você esperaria tudo outra vez? — perguntou. Nem precisei pensar. — Mil vezes. — Respondi de prontidão, isso era uma certeza. — Eu viveria cada um daqueles dez anos outra vez. Cada missão. Cada despedida. Cada oração sem resposta. Cada dia de saudade. — Olhei para a aliança mais uma vez, meu coração era verdadeiramente grato. — Porque, no fim, eu encontrei a sua mãe exatamente no tempo perfeito de Deus. — Sorri. — E eu descobri que a espera nunca foi um castigo, foi o caminho. — Estiquei a mão e apertei de leve o ombro dele. — Você também vai ter o seu tempo, filho. — E se demorar? Sorri. — Então aproveite esse tempo para se tornar o homem que a mulher certa vai precisar encontrar. O resto... deixa Deus escrever. Antes que ele pudesse responder, ouvimos passos vindo do andar de cima. Norah apareceu primeiro com os cabelos ainda um pouco bagunçados de quem tinha acabado de acordar. Usava um moletom largo e segurava a caneca de café com as duas mãos. Sorri imediatamente. Vinte anos depois... Meu coração ainda reagia do mesmo jeito. Logo atrás dela, uma pequena figura surgiu correndo escada abaixo. — Mamãããe! Me espera! — Minha caçula gritou. Hannah descia abraçada ao seu urso de pelúcia, os cabelos loiros completamente despenteados enquanto tentava acompanhar a mãe. Norah olhou para trás e riu. Aquele mesmo riso. O mesmo que eu ouvi quando éramos crianças. O mesmo que fez meu coração parar dentro de um ônibus. O mesmo que, vinte anos depois, ainda fazia daquela casa o meu lugar favorito no mundo. Olhei para Lucah. — Está vendo? Ele acompanhou meu olhar. Sorriu junto comigo. Porque, no fim, eu descobri que Deus nunca me fez esperar por dez anos. Ele levou dez anos escrevendo o nosso para sempre.

Fim.

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